Thank You Bus Driver: o primeiro jogo do Double Fine Action Labs
Um ônibus, um relógio correndo e passageiros que precisam seguir as regras. O selo de projetos despretensiosos da Double Fine estreia com um jogo caótico e viciante.
Desde julho, quando foi anunciado que o reset do Xbox faria com que eles se livrassem de alguns estúdios, eu estava procurando um motivo para falar sobre a Double Fine.
Não que a gente precise necessariamente de algum motivo para falar de alguma coisa, mas eu não queria apenas falar alguma coisa sobre o passado deles ou sobre os ataques que eles estavam sofrendo, principalmente de muitas pessoas que estavam colocando a culpa no estúdio por eles terem sido desovados pelo Xbox, como se eles mesmos fossem os próprios culpados pela situação em que estavam.
Indie, e com todas as IPs
Eles se tornaram um estúdio indie e, como parte do acordo com o Xbox, conseguiram manter todas as suas IPs.
Em agosto, eles anunciaram um novo Amnesia Fortnight, com o subtítulo de Indie Reboot, onde fizeram uma game jam interna. Eles fizeram um pitch de 26 ideias e abriram para o público votar nas que mais chamassem atenção, e no dia 31 de agosto abriram um Kickstarter para ajudar a financiar essa produção.
Action Labs, o selo dos projetos despretensiosos
No dia 4 de setembro, eles anunciaram um novo selo para a marca, a Double Fine Action Labs, que funciona como um selo para que eles possam experimentar novas ideias, apostar no diferente, criar projetos menores mas que não precisem ficar tanto tempo em desenvolvimento. Muito inspirado por jogos recentes que vêm fazendo sucesso seguindo esse modelo, como Peak e Mecha Chameleon.
Aqui é importante não confundir quando falo “que não precisam ficar tanto tempo em desenvolvimento” com algo pejorativo, do tipo “não ter qualidade e ser desenvolvido rápido só para lançar qualquer coisa”. Acho que o tom certo é falar que são jogos mais despretensiosos. Até um jogo indie tem que ter um certo sucesso para garantir a sobrevivência do estúdio, garantir que seus funcionários sejam pagos, etc. Mas esses jogos que eu citei, e acho que você pode colocar qualquer friendslop nessa lista (só um parêntese para dizer que eu não gosto desse termo, acho que nós temos a capacidade de pensar em um termo melhor para descrever esse tipo de jogo), não parecem ter o intuito de fazer tanto sucesso ou de salvar um estúdio. Eles têm uma boa ideia e, despretensiosamente, desenvolvem um monstro que faz um sucesso inacreditável e que nem eles esperavam.
Acho que é nesse mesmo intuito que a Double Fine cria o selo Action Labs, para fazer jogos mais despretensiosos. Não que eles sejam ingênuos e achem que é só fazer qualquer coisa que o pessoal vai acabar comprando, mas a Double Fine é um dos poucos estúdios que parece que transbordam criatividade.
A Double Fine é um dos poucos estúdios que parece que transbordam criatividade.
É só pegar a lista de jogos que eles já lançaram e você vai ver que é muito difícil eles terem uma fórmula. Os dois únicos jogos que me vêm à cabeça quando penso em fórmula e em sequência são Psychonauts, que eu queria que já tivesse uns dez da franquia, e Costume Quest, que também é muito divertido. Mas se você pega os outros jogos deles, tem Brutal Legend, Full Throttle, Grim Fandango, Massive Chalice, Broken Age e, mais recentemente, Kiln e Keeper, todos extremamente diferentes uns dos outros.
Então eu acho, sim, que a Double Fine é um dos poucos estúdios da indústria que não se importam muito de se prender a uma fórmula, e o Action Labs vem para apostar ainda mais nessa parte.
Thank You Bus Driver
Junto com o selo, eles já anunciaram o primeiro jogo que faria parte dele, no mesmo dia 4 de setembro: Thank You Bus Driver.
A ideia geral do jogo é simples: você é um motorista de ônibus e o seu combustível é o agradecimento, o “obrigado” que você recebe dos seus passageiros. Mas, para eles te agradecerem, eles têm que ficar contentes com a viagem, e para mantê-los felizes você tem que garantir que todos os passageiros sigam as regras impostas dentro do ônibus.
Como funciona
Você começa com o ônibus estacionado na garagem e, no momento em que acelera em direção ao primeiro ponto, o relógio começa a correr. Quando você para o ônibus nos pontos para os passageiros subirem ou descerem, o relógio para, mas no momento em que as portas se fecham você tem que ir o mais rápido possível até o próximo objetivo.
Nas primeiras paradas ainda não tem regra nenhuma, então os passageiros são livres para fazer o que quiserem: comer, dormir, falar ao celular, cortar as unhas, qualquer coisa. Depois de algumas paradas, uma voz no rádio começa a falar as regras que você tem que fazer os passageiros seguirem. Por exemplo: a voz diz que agora é proibido comer. Se um passageiro estiver comendo, você tem que fazer com que ele pare. E como se faz isso? Dando um tapa nele, é claro. São regras que a gente deveria ter no mundo real também, e uma solução que a gente também deveria ter no mundo real para quando isso acontecesse. Se você não fizer isso, os outros passageiros começam a se sentir irritados e menos gratos com a sua direção, e no final, em vez de ganhar os obrigados, você não ganha nada. E, se o bagunceiro voltar a repetir a bagunça, você é livre a qualquer momento para pegá-lo e jogá-lo para fora do ônibus.
O intuito do jogo é ser caótico, um jogo em que você vai acumulando coisas às quais tem que prestar atenção. As regras vão se acumulando e, em determinado momento, você tem que ver se não tem nenhum passageiro comendo, fedendo, falando ao celular ou dormindo.
Para bater nos passageiros, você tem que olhar para trás, selecionar qual deles está infringindo as regras e bater nele. Enquanto você olha para trás, o ônibus continua andando, então você tem que ter uma boa noção do espaço e de para onde está indo.
Controles
Em geral, os comandos do jogo são simples e responsivos. Eu joguei no teclado e mouse, mas depois que joguei pelo controle não pretendo jogar mais com o teclado: é muito mais intuitivo apertar os botões do controle. Os dois jeitos de jogar enfrentam o mesmo problema, no entanto: selecionar qual passageiro você quer bater é meio complicado.
Tudo bem que o intuito do jogo é ser caótico, e tudo bem que o intuito é fazer você prestar muita atenção, mas olhar para trás e selecionar um personagem podia ser uma tarefa um pouco mais bem resolvida. Quando você olha para trás, seleciona um passageiro apontando para ele. Você tem um braço gigante e tem que apontar o dedo exatamente para o passageiro, mas, se ele estiver atrás de um passageiro grande, vira uma missão difícil fazê-lo seguir as regras. Bater em todos os passageiros não te prejudica de nenhum jeito (eu mesmo, quando não consigo ver quem está fazendo algo errado, bato em todo mundo até acertar o passageiro certo), mas mesmo assim isso é um problema do controle.
Repetição e variedade
O jogo hoje tem um mapa com algo em torno de dez paradas, e o mapa não é exatamente grande, então você vai ver muitos pontos muitas vezes, o que faz o jogo ficar um pouco repetitivo. O que ajuda a disfarçar essa repetição é que o mapa tem alguns atalhos pré-definidos, que você vai aprendendo a usar conforme dirige. Fora isso, dá para liberar alguns filtros e mudar um pouco o visual em preto e branco, mas é essa a variedade que existe.
Os passageiros têm um visual 2D de rabiscos no papel e, por mais charmosos e carismáticos que sejam, não têm variedade suficiente para te fazer esquecer algum. O mais diferente é um passageiro que, quando vai subir no ônibus, abre o roupão e mostra alguns itens para você escolher. Eles dão power ups ou benefícios: um boost de aceleração, obrigados em dobro de alguns passageiros ou a anulação de algum efeito, como o fedor.
Já que citei Peak e Mecha Chameleon como inspirações para o selo, vale lembrar que esses jogos são multiplayer, e Thank You Bus Driver é singleplayer, o que ajuda nessa sensação de repetição. Não acho que coubesse algum elemento multiplayer aqui, mas, se tivesse, daria outro ar ao jogo, já que seria mais difícil todas as runs serem iguais.
Veredito
O jogo tem várias ideias legais que parecem não ter sido tão bem executadas, mas a jogabilidade viciante, que lembra bastante Crazy Taxi, só que mais lento, compensa essas falhas. No fim, quando você já gravou todos os caminhos da cidade, de dia e de noite, você acaba sendo um motorista excelente, mesmo que o único obstáculo seja ver o que os passageiros estão aprontando, sem se preocupar tanto com a estrada. Mas a conclusão de um dia perfeito depois de pegar mais de cem obrigados é uma sensação muito gostosa de dever cumprido. Então só resta você bater o ponto e começar tudo de novo!
Thank You Bus Driver está disponível para PC e está aí para mostrar que, se depender de ideias boas, a Double Fine vai prosperar muito. Eu mal posso esperar para ver o que vem por aí para o estúdio.
Ideias legais, nem todas bem executadas
A jogabilidade viciante, que lembra Crazy Taxi mais lento, compensa as falhas.
O que funciona
- Jogabilidade viciante, na linha de Crazy Taxi, só que mais lenta
- Comandos simples e responsivos, melhores no controle
- Regras que se acumulam e deixam tudo caótico
- Atalhos no mapa que você aprende ao dirigir
O que não funciona
- Selecionar o passageiro certo para bater é complicado
- Mapa pequeno, com cerca de dez paradas, e repetição
- Pouca variedade visual e de passageiros
- Sendo singleplayer, as runs se parecem muito
Qual regra você colocaria no seu ônibus?
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